A outra colheita de outubro: a apanha da castanha nos soutos de Trás-os-Montes

A manhã ainda tem geada quando se entra no souto. O chão está coberto de ouriços abertos, castanhas espalhadas como se a noite as tivesse semeado, e um silêncio só quebrado pelo estalar das folhas debaixo dos pés. Lá ao fundo, numa encosta, veem-se as redes estendidas sob as oliveiras. É outubro em Trás-os-Montes — e o território faz, ao mesmo tempo, duas colheitas.
Enquanto a oliveira guarda a folha o ano inteiro, o castanheiro despe-se e pinta a serra de dourado e ferrugem. É a estação em que a paisagem muda de cor, o cheiro a fumo regressa às aldeias e os lagares começam a laborar. Para quem gosta de viajar devagar, não há melhor altura para visitar e perceber este território por dentro.
Duas colheitas, um mesmo outubro
A colheita da azeitona e a apanha da castanha acontecem lado a lado, no mesmo mês e muitas vezes na mesma família. Nas encostas, varejam-se as oliveiras e o fruto segue para o lagar; nos soutos, apanha-se a castanha que seguirá para a lareira e para a mesa. Dois frutos, dois destinos — mas o mesmo calendário e o mesmo saber, passado de geração em geração. É esta sobreposição que torna o outono tão rico para o olivoturismo: numa só viagem, prova-se o azeite novo e colhe-se castanha ainda quente do souto.
Para acompanhar o lado do azeite, deixámos dois guias: o que se decide no olival em outubro e como participar na colheita da azeitona.
A apanha da castanha, souto a souto

A apanha da castanha é um ritual de paciência. O ouriço — a cápsula espinhosa que protege o fruto — abre quando a castanha amadurece e deixa-a cair, ou é derrubado com a vara. No chão, apanha-se à mão, com luvas, porque os espinhos não perdoam; escolhe-se, separa-se, guarda-se. É um trabalho de serra, feito em família, que enche os soutos de vozes nas manhãs frias de outubro.
A Terra Fria transmontana — com Vinhais e Bragança à cabeça — é um dos grandes territórios da castanha em Portugal, com soutos antigos que são, eles próprios, paisagem a preservar. É também o coração da tradição do fumeiro e de aldeias de pedra como Pinheiro Novo, onde o outono se vive sem relógio.
O ouriço, o castanheiro e o tempo certo
O castanheiro é uma árvore de gerações: há exemplares com séculos, de troncos enormes e copas que dão sombra a um souto inteiro. A castanha cai madura a partir de outubro e não espera — por isso a apanha é diária, enquanto dura. Quem visita nesta altura apanha o território no seu momento mais vivo, entre a azeitona e a castanha.
Do souto à mesa (e um fio de azeite)
Depois da apanha vem a brasa. A castanha assada é o sabor mais imediato do outono, mas o fruto entra também em sopas, estufados e doçaria — e casa surpreendentemente bem com um bom azeite da região, num gesto simples que vale por si. Essa é outra história, que contámos à parte: castanha e azeite, quando o outono se senta à mesa. Provar é, aqui, a melhor forma de conhecer a origem.
Viver o outono no território
Outubro é, para muitos, a melhor época para visitar Trás-os-Montes e o Alto Douro — e uma experiência de olivoturismo nesta altura ganha uma profundidade que o verão não tem. A luz baixa, as cores viram, os lagares laboram e os soutos chamam. Um dia pode começar com a prova do azeite novo num produtor da região, seguir por um passeio entre oliveiras centenárias e acabar num souto, de cesto na mão.
E há mais à volta: trilhos de serra entre castanheiros, mesas transmontanas sem pressa, o fumeiro a começar, e a primeira lareira da estação ao fim do dia. A rede do Azeite a Norte reúne produtores, lagares, alojamentos e restauração por todo o território, para que uma visita de outono dure de um dia a um fim de semana inteiro.
Um fim de semana possível
Manhã no souto, a apanhar castanha com uma família da serra. Ao almoço, mesa transmontana e um fio de azeite novo sobre a broa. À tarde, visita a um lagar em plena laboração e prova comentada com o produtor. Ao fim do dia, lareira, castanhas na brasa e o sossego de quem já não tem pressa. Começa a montar o teu pelos produtores da rede e escolhe o teu ponto de partida.
Antes de ires
Leva calçado de serra, uma bolsa para a castanha e tempo para não ter pressa. E uma nota de respeito: há soutos de propriedade privada — apanha sempre com autorização e nunca danifiques as árvores. A serra retribui a quem a trata bem.
Queres receber os melhores momentos do outono transmontano? Subscreve a nossa newsletter e segue o Azeite a Norte. E se tens um souto, uma quinta ou uma experiência para partilhar, junta-te à rede.





Comentários