Cogumelos e azeite novo: quando a floresta e o olival se sentam à mesma mesa

Há dias em que o território faz tudo ao mesmo tempo.
Os lagares estão abertos e o azeite novo saiu há dias — verde, picante, com aquele travo de erva fresca que em março já não existe. E nos pinhais e carvalhos que rodeiam o olival, nos solos húmidos das primeiras chuvas de outono, os cogumelos aparecem como aparecem sempre: sem aviso, numa manhã que era igual às outras.
Em novembro, Trás-os-Montes e Alto Douro tem duas colheitas a acontecer ao mesmo tempo. Uma no olival. Outra na floresta. E as duas acabam na mesma mesa.
A floresta de novembro não é silenciosa
Há um engano comum sobre o outono no interior: que é uma estação de recolhimento, de terra parada. Não é. Novembro em Trás-os-Montes tem o olival na sua fase mais activa — a colheita da azeitona a decorrer, as moagens a trabalhar noite e dia, os produtores com as mãos cheias. E tem a floresta a fazer a sua própria colheita, discreta e pontual, que quem não sabe procurar não encontra.
Os cogumelos silvestres crescem nas margens — onde o pinheiro encontra o carvalho, onde o solo guarda a humidade das últimas chuvas, onde a temperatura baixou mas não gelou ainda. São efémeros. Estão ali dois, três dias, e depois passaram. Quem os conhece, sabe onde ir. Quem não conhece, aprende que há coisas que o mapa não mostra.
O que cresce, concretamente
Entre as espécies mais apreciadas nesta estação e neste território estão as sanchas (Lactarius deliciosus), os boletos (Boletus edulis) e os frades (Macrolepiota procera). Em anos bons também aparecem as trombetas-dos-mortos (Craterellus cornucopioides), de sabor intenso e perfumado. Nenhuma destas espécies é "simples": a identificação rigorosa, feita com quem sabe, faz parte da experiência e nunca deve ser dispensada.
Azeite novo e cogumelos: uma combinação que tem lógica

Não é uma tendência gastronómica. É uma consequência do calendário natural deste território.
O azeite novo de Trás-os-Montes e Alto Douro chega às moagens entre outubro e dezembro — com um perfil de colheita antecipada, quando o polifenol está no pico e a picância é ainda intensa. É um azeite que não apaga os sabores com que se cruza: intensifica-os. E os cogumelos, com os seus aromas terrosos, fumados, às vezes quase metálicos, respondem bem a um azeite com personalidade.
Um fio de azeite novo sobre cogumelos salteados com alho e salsa não é uma receita de chef. É o que se faz em Trás-os-Montes quando se tem as duas coisas ao mesmo tempo — e esse tempo é agora.
Da floresta à mesa: o que a gastronomia transmontana já fazia
A cozinha transmontana nunca precisou de inventar esta combinação. Os cogumelos aparecem há gerações nas sopas de pedra, nos arroz de linguiça e javali, nos pratos de forno que cozem devagar enquanto a lareira arde. O azeite era o fio que ligava tudo — não como toque final de chef, mas como ingrediente de base, parte da estrutura do prato.
O que muda, quando se usa azeite novo desta região neste mês específico, é a intensidade. É uma coisa diferente de qualquer outra versão desse mesmo prato no resto do ano.
Um evento que leva a sério o que a terra produz
A 20, 21 e 22 de novembro, em Sendim da Serra, no município de Alfândega da Fé, acontece o II Festival Micológico de Sendim da Serra— um evento que regressa para a segunda edição com a seriedade de quem percebe que cogumelos não são um nicho: são parte do território.
O programa inclui saídas ao campo acompanhadas por profissionais de micologia, workshops, showcooking — no sábado, com o Chef Luís Martins do Restaurante Baraço — prova de azeite novo no sábado ao meio-dia, magusto, prova de cogumelos à volta da fogueira, e uma “Homenagem às Chefes da Nossa Terra”, com as vencedoras do programa da RTP1. No domingo, a feijoada de cogumelos com enchidos e carne grelhada é o almoço temático.
A entrada é livre. O contacto é a Junta de Freguesia de Sendim da Serra: 934 748 358 / 919 654 577 — ou pelo e-mail uniaofreguesiasfs@gmail.com.
Não é preciso ser especialista em micologia para ir. É preciso querer perceber o que este território produz quando ninguém está a olhar.
O que a mesa de novembro ensina
Há uma coisa que a gastronomia de Trás-os-Montes e Alto Douro faz bem e que raramente se articula: usa o que está disponível, quando está disponível, sem hierarquia. O cogumelo que apareceu esta manhã vale tanto como o corte de carne que ficou na cave. O azeite novo que chegou ontem da moagem é tratado com a mesma seriedade que um vinho de colheita.
É uma cozinha de território — não no sentido de museu, mas no sentido de que o território determina o que está na mesa. E em novembro, o que está na mesa é isto: floresta e olival, ao mesmo tempo, sem precisar de mais explicação.
Integrar numa visita ao território
Alfândega da Fé fica a sul de Macedo de Cavaleiros, entre a Serra de Bornes e o Vale da Vilariça, em pleno coração de Trás-os-Montes. Um fim de semana que combine o Festival Micológico com uma visita a um produtor de azeite da rede — para provar o azeite novo diretamente na quinta, ainda antes de chegar ao mercado — é um fim de semana que usa o território tal como ele é, nesta estação, sem forçar nada.
As experiências e os produtores da rede estão em azeiteanorte.pt/produtores e azeiteanorte.pt/experiencia. Para quem quiser orientação, escreve para info@azeiteanorte.com.
Viaja | Descobre | Experimenta
“O azeite de Trás-os-Montes não se explica. Prova-se.”
Fontes:
Festival Micológico de Sendim da Serra ‘26 — cartaz oficial, Junta de Freguesia de Sendim da Serra / Câmara Municipal de Alfândega da Fé
Espécies de cogumelos silvestres de outono em TMAD: Sociedade Portuguesa de Micologia / literatura de campo
Fenologia do azeite novo e polifenóis: INIAV — Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária: iniav.pt





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