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Janeiro no Olival: o silêncio que prepara o renascer


Olival no inverno

Depois de dezembro fechar o ciclo da colheita e celebrar o azeite novo à mesa, janeiro chega ao olival trazendo o frio profundo do inverno transmontano. O olival respira devagar, envolto no silêncio da dormência, enquanto nas aldeias as tradições ancestrais do ciclo de inverno mantêm viva a ligação entre terra, memória e comunidade.

Este é o mês do repouso necessário — mas também do trabalho invisível que acontece dentro de cada oliveira, preparando-a silenciosamente para a próxima floração.


A Oliveira em Repouso: o trabalho secreto do inverno


Janeiro marca o ponto mais profundo do repouso vegetativo da oliveira. Enquanto a paisagem transmontana se cobre de geada e as temperaturas mergulham abaixo de zero, as árvores parecem adormecidas — mas por baixo da casca rija, uma transformação silenciosa está em curso [1].


É durante este período de frio que se dá a diferenciação dos gomos florais, processo fundamental para a próxima floração. As oliveiras precisam acumular frio — horas com temperaturas abaixo dos 12,5°C — para que os botões nas axilas das folhas possam transformar-se em flores na primavera que se aproxima. Sem este descanso invernal profundo, não há floração, e sem floração, não há azeitona [2,3].


Em Trás-os-Montes e Alto Douro, janeiro cumpre este papel com rigor: as geadas pintam de branco os ramos e o frio penetra na terra, garantindo às oliveiras o descanso que necessitam para renascer com vigor.


O Olival sob Vigilância: cuidar no silêncio


Apesar do repouso das árvores, o olivicultor não descansa completamente. Janeiro é mês de vigilância atenta: percorrer o olival, observar o estado das oliveiras após a colheita, verificar se há danos causados pelas geadas ou pelo peso da neve, retirar ramos partidos pelo vento.

Tratar o olival

É também o momento de realizar ou completar os tratamentos fitossanitários de inverno com produtos cúpricos, que protegem as oliveiras de doenças fúngicas durante o período de maior vulnerabilidade. A aplicação de calda bordalesa ou oxicloreto de cobre reduz o inóculo de doenças como a tuberculose da oliveira e a gafa, preparando as árvores para o despertar que virá [4].

Nos olivais com cobertura vegetal, pode realizar-se o trabalho superficial do solo — mobilizações ligeiras que melhoram a estrutura do terreno e favorecem a drenagem das chuvas de inverno, sem destruir a vegetação espontânea que protege a terra da erosão [5,6].


Janeiro é também tempo de planear: observar cada oliveira com atenção, preparar ferramentas, organizar o calendário agrícola do ano que se inicia. É o mês da preparação silenciosa, do cuidado que não se vê mas que faz toda a diferença.


Janeiro nas Aldeias: o ciclo das tradições de inverno


Enquanto o olival descansa, janeiro é mês de grande intensidade cultural em Trás-os-Montes. As Festas de Inverno — rituais ancestrais que celebram a mudança de ciclo e a entrada do novo ano — marcam profundamente o calendário das aldeias transmontanas.


Entre o dia 26 de dezembro (Santo Estêvão) e o dia 6 de janeiro (Reis), as máscaras e os Caretos saem às ruas em celebrações que remontam a tempos pré-cristãos. A Festa dos Rapazes, marca a passagem dos jovens para a idade adulta através de rituais de renovação e purificação.


Estas festas, realizadas em aldeias como Varge, Podence, Ousilhão e tantas outras, são expressão viva de uma cosmovisão agrária que liga o trabalho na terra aos ciclos naturais e sociais. Os mascarados, vestidos de franjas coloridas e máscaras de latão ou madeira, percorrem as ruas ao som de chocalhos, "espantando" os males do inverno e celebrando a renovação da comunidade [7]. 


Em algumas aldeias, como Bemposta, o Chocalheiro — figura que personifica o Diabo — sai às ruas no dia 1 de janeiro, num ritual de penitência que mistura cristianismo e paganismo, pedindo esmola em nome do Menino Jesus. Estes rituais, embora possam parecer distantes do trabalho no olival, partilham a mesma raiz: a ligação profunda entre as comunidades rurais e os ritmos da terra [8].


O Frio que Faz Renascer: a importância do inverno rigoroso



Geada no inverno

Janeiro é também o mês que nos ensina o valor do frio. Em tempos de alterações climáticas, onde os invernos se tornam progressivamente mais amenos, o frio rigoroso de Trás-os-Montes ganha ainda mais importância para a olivicultura.


As oliveiras necessitam de acumular centenas de horas de frio (temperaturas abaixo dos 12,5°C) para completar a vernalização — processo que induz a floração na primavera seguinte. Sem este frio acumulado, a floração pode ser irregular, escassa ou mesmo não ocorrer, comprometendo a produção [2,3,9].


É por isso que janeiro, com as suas geadas e temperaturas negativas, não é um adversário da oliveira — é um aliado. O frio que corta é o mesmo que garante a abundância da próxima colheita. E nos olivais transmontanos, centenários e milenares, este ciclo repete-se há gerações, num ritmo que nenhuma tecnologia consegue apressar.


Janeiro para sentir


Para quem visita Trás-os-Montes e Alto Douro em janeiro, este é o mês do silêncio e da contemplação. O olival, despido do frenesim da colheita, revela-se na sua essência mais pura: árvores retorcidas pelo tempo, paisagens desenhadas pelo trabalho de séculos, a serenidade do inverno que prepara a primavera.



Passeio no olival

É tempo de caminhar pelos olivais sem pressas, sentir o frio que acorda os sentidos, ouvir o silêncio que só o inverno transmontano conhece. Nas aldeias, as lareiras mantêm-se acesas e o azeite novo continua a ser protagonista nas mesas — em sopas fumegantes, legumes assados, bacalhau cozido e nas fatias de broa mergulhadas no ouro verde.


Janeiro é também o mês perfeito para assistir às Festas de Inverno, conhecer as tradições dos caretos, participar em provas de azeite nos lagares que ainda mantêm portas abertas ou simplesmente perder-se pelas aldeias de xisto onde o tempo parece ter parado.

É também um mês ideal para experiências culturais ligadas ao território — descobre mais em azeiteanorte.pt/experiencia


O repouso que é preparação


Janeiro ensina-nos que o repouso não é inatividade — é preparação. Enquanto as oliveiras acumulam frio e preparam os seus botões florais, enquanto a terra descansa sob a geada, enquanto as aldeias celebram os seus rituais de renovação, tudo se prepara para o novo ciclo que virá.


É o mês que honra o silêncio necessário, o tempo que não se apressa, a sabedoria de esperar. E no norte interior de Portugal, onde o frio corta e o vento sopra forte, janeiro é também tempo de gratidão — pela colheita que passou, pelo azeite que chegou às garrafas, pela oliveira que resiste há séculos, ensinando-nos a arte de renovar sem nunca perder as raízes.


🫒 Acompanha connosco o ciclo da oliveira mês a mês — em fevereiro, veremos como a oliveira se prepara para despertar e como a poda molda o futuro da próxima colheita.



Referências

[2]Engelen, C., Wechsler, T., Bakhshian, O., Smoly, I., Flaks, I., Friedlander, T., Ben-Ari, G., & Samach, A. (2023). Studying Parameters Affecting Accumulation of Chilling Units Required for Olive Winter Flower Induction. Plants, 12(8), 1714. https://doi.org/10.3390/plants12081714 

[5]Cerdà, A., Terol, E., & Daliakopoulos, I. N. (2021). Weed cover controls soil and water losses in rainfed olive groves in Sierra de Enguera, eastern Iberian Peninsula. Journal of environmental management, 290, 112516. https://doi.org/10.1016/j.jenvman.2021.112516 

[6]F. Márquez-García et al, Influence of cover crops and tillage on organic carbon loss in Mediterranean olive orchards, Soil and Tillage Research (2023). DOI: 10.1016/j.still.2023.105905 


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