Festas de São Estêvão: Celebrar com Sabor em Trás-os-Montes e Alto Douro
- Azeite a Norte

- 25 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
"Depois do Natal vem Santo Estêvão, e com ele a mesa que une todo o povão" — Ditado transmontano
Quando o dia 26 de dezembro amanhece nas aldeias de Trás-os-Montes e Alto Douro, as fogueiras da véspera ainda fumegam nas praças, mas a região prepara-se para uma das tradições mais generosas e comunitárias do inverno português: as Festas de São Estêvão [1].
Mais do que uma celebração religiosa em honra do primeiro mártir cristão, Santo Estêvão tornou-se o padroeiro dos rapazes solteiros transmontanos e o símbolo de uma das maiores manifestações de hospitalidade e partilha da região: as Mesas de Santo Estêvão, refeições comunitárias onde todo o povo — e os forasteiros — são convidados a sentar-se e partilhar o mesmo pão, o mesmo bacalhau e o mesmo azeite novo da colheita [2].
Santo Estêvão: O Padroeiro dos Rapazes

Santo Estêvão, celebrado no dia 26 de dezembro, é especialmente venerado em Trás-os-Montes como o padroeiro dos rapazes solteiros — aqueles que, pela tradição, organizam as festas de inverno, carregam os madeiros, saem mascarados como caretos e mantêm vivos os rituais ancestrais da região.
A associação entre o santo e a juventude masculina tem raízes profundas na cultura transmontana: são os rapazes que garantem a continuidade das tradições, que desafiam a autoridade adulta com as suas críticas sociais (as "loas"), e que simbolizam a renovação e a fertilidade da comunidade [3].
As Mesas de Santo Estêvão: Quando a Aldeia Inteira Se Senta à Mesa
Rebordãos (Bragança) — A Mesa Mais Emblemática
Na aldeia de Rebordãos, a Mesa de Santo Estêvão é uma instituição centenária que define o espírito comunitário transmontano. No dia 26 de dezembro, após a missa solene das 11h, toda a população — e qualquer visitante que queira participar — é convidada para uma refeição comunitária à base de bacalhau e batatas cozidas, servida na Casa do Povo [2].
Como funciona a Mesa de Santo Estêvão:
Desde as 8h da manhã, três mordomos percorrem a aldeia de casa em casa num ritual de peditório, acompanhados por um careto mascarado, recolhendo oferendas de cada família — batatas, bacalhau, azeite, vinho, enchidos. O quarto mordomo permanece na Casa do Povo a gerir a logística da grande refeição [2].
Às 13h, quando o sino toca, a aldeia inteira dirige-se ao salão onde estão dispostas longas mesas cobertas por toalhas brancas. Na cabeceira, preside o próprio Santo Estevão — uma imagem portátil de tamanho pequeno —, simbolizando que todos comem sob a proteção do santo [3].
Durante a refeição, servem-se generosas porções de:
Bacalhau cozido regado com fio de azeite virgem extra da última colheita
Batatas cozidas também temperadas com azeite novo
Pão bento, distribuído pelos mordomos após a bênção do pároco
Enchidos e fumeiro oferecidos pelas famílias
Vinho da região
A tarde prolonga-se com a atuação dos caretos, que trazem alegria e caos controlado às ruas, visitando casas e adegas num ritual de fertilidade e renovação [4].
Ousilhão (Vinhais) — A Transmissão do Poder dos Mordomos
Em Ousilhão, a Festa de Santo Estêvão é marcada pela solene transmissão de poderes entre os mordomos cessantes e os novos. Durante a tarde do dia 26, após a missa e a bênção do pão, realiza-se um ritual cerimonial onde o Rei e os seus dois Vassalos — figuras centrais da festa — são transportados num carro de bois tradicional pelas ruelas da aldeia até às casas dos novos líderes, onde se come, bebe e dança [5].
Ao longo do dia, os caretos (aqui chamados "máscaros") percorrem a aldeia ao som de gaitas-de-foles, bombos e tarolas, visitando adegas e casas num "assalto às adegas" onde são recebidos com enchidos, vinho e doces regionais. À noite, a galhofa (baile tradicional) celebra o encerramento das festividades [6].
Torre de Dona Chama (Mirandela) — Património Vivo da Comunidade
Em Torre de Dona Chama, a Festa de Santo Estêvão assume um carácter profundamente comunitário e identitário. Celebrada a 26 de dezembro, a festa articula o sagrado e o profano num ciclo ritual bem definido. Após os excessos controlados da juventude na noite anterior — marcados por sátira social e inversão simbólica da ordem — o dia de Santo Estêvão devolve a centralidade à comunidade reunida, à religião e à partilha.
O momento central da manhã é a Missa solene em honra de Santo Estêvão, seguida da tradicional Bênção do Pão, realizada no adro da igreja. Este pão, benzido e distribuído, representa a coesão da aldeia, a igualdade entre todos e a proteção do santo sobre a comunidade no ano que se inicia.
Durante o dia, desenvolvem-se rituais coletivos que reforçam a identidade local, com destaque para encenações simbólicas e cortejos que evocam episódios históricos e lendários associados à aldeia. Estes momentos funcionam como uma memória encenada, transmitida oralmente e vivida de forma participada, envolvendo diferentes gerações. A festa culmina no convívio popular, onde a comida, o vinho, o azeite novo e o encontro substituem qualquer hierarquia social.
Outras Aldeias com Festas de Santo Estêvão
As celebrações repetem-se, com variações locais, em dezenas de aldeias transmontanas [7]:
Grijó de Parada (Bragança): Ronda das boas-festas e caretos
Vila Meã (Bragança): Festa dos Rapazes com alvorada ao som de gaita-de-foles
Babe, Deilão, Parada de Infações: Festividades comunitárias com refeições partilhadas
Varge (Bragança): Festa dos Rapazes com o tradicional "cantar das loas"
Constantim (Miranda do Douro): Festa dos Rapazes em louvor de São João Evangelista (27 dez), com pauliteiros
A Gastronomia das Festas de Santo Estevão
O Bacalhau: Protagonista das Mesas Comunitárias

Nas Mesas de Santo Estêvão, o bacalhau cozido é o prato central. Simples, democrático e generoso, o bacalhau simboliza a partilha: não háricos nem pobres quando todos comem do mesmo peixe, da mesma panela, regado pelo mesmo azeite [4].
O Azeite Novo: O Ouro Líquido das Festas de Inverno
Dezembro é o mês em que o azeite novo da colheita de outubro-novembro chega às mesas transmontanas. Ainda fresco, com notas picantes e aromáticas intensas, o azeite virgem extra de Trás-os-Montes e Alto Douro é o ingrediente que eleva todos os pratos das festas de São Estêvão [9].
Como usar o azeite nas celebrações de Santo Estêvão:
No bacalhau cozido: Regar generosamente o peixe e os legumes ainda quentes para absorverem todos os aromas
Nas batatas assadas: Batatas cortadas em gomos, regadas com azeite, alho picado, alecrim e sal grosso, assadas no forno a lenha
Nos enchidos grelhados: Um fio de azeite sobre a alheira ou o chouriço grelhado intensifica o sabor
No pão: Fatias de broa caseira embebidas em azeite novo, sal grosso e orégãos
Doçaria das Festas de Santo Estêvão
Após a refeição comunitária, seguem-se os doces tradicionais transmontanos, muitos deles confecionados com o azeite da região:
Filhós de jerimú (abóbora-menina): Fritas em azeite, polvilhadas com açúcar e canela
Rabanadas: Embebidas em vinho ou leite, fritas e cobertas com açúcar e canela
Papos-de-Anjo de Mirandela: Doces de ovos recheados com compota de fruta
Broas de azeite: Bolos rústicos onde o azeite confere textura e sabor únicos
O Significado Profundo: Partilha, Inclusão e Identidade
As Festas de São Estêvão e as suas Mesas comunitárias representam um dos mais belos exemplos de democracia alimentar em Portugal. Aqui, não há distinções sociais: o médico senta-se ao lado do lavrador, o emigrante ao lado do pastor, o forasteiro ao lado do nativo. Todos comem o mesmo bacalhau, bebem do mesmo vinho, partilham o mesmo pão bento [4].
Esta tradição é também um ato de resistência cultural — numa era de individualismo crescente, as aldeias transmontanas mantêm viva a ideia de que a celebração mais importante é aquela que se partilha com a comunidade inteira. O azeite, generosamente derramado sobre o bacalhau, é o símbolo líquido desta partilha: o ouro da terra transmontana que une todos à mesa.
"Onde há mesa de Santo Estêvão, há lugar para mais um irmão" — Provérbio transmontano
Vem celebrar Santo Estêvão com sabor. Vem partilhar a mesa transmontana.
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Referências
[5]https://www.rotaterrafria.com/pages/330/?geo_article_id=8110 [6] Cordeiro, P. (2020). Entre o mistério e o teatro popular : A festa de Santo Estêvão , dos rapazes e dos Caretos em Torre de Dona Chama. Revista Memorial Rural, 3, 352–363.




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