Amêndoa e Azeite: Quando a Flor se Transforma em Sabor
- Azeite a Norte Blog

- há 2 dias
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Ainda antes da primavera chegar oficialmente, há um espetáculo que anuncia a sua chegada em Trás-os-Montes e Alto Douro: as amendoeiras em flor. Manchas brancas e rosadas cobrem as encostas, contrastando com o xisto escuro e os olivais ainda cinzentos do inverno. É uma promessa visual de que algo bom está a caminho — e esse "algo" vai muito além da beleza.
A amêndoa e o azeite partilham não só o mesmo terroir transmontano, mas também uma história de séculos de convivência à mesa. São produtos que se complementam de forma natural, ambos frutos de árvores que aprenderam a prosperar em solos difíceis, ambos símbolos de uma região que transforma adversidade em excelência.
A Amêndoa: Um Tesouro Transmontano
Trás-os-Montes detém a maior área de amendoal de Portugal — mais de 25 mil hectares que fazem desta região o coração da produção nacional de amêndoa. Não é por acaso. A amendoeira (Prunus dulcis) adaptou-se perfeitamente aos solos pedregosos, declivosos e de xisto que caracterizam a paisagem transmontana, encontrando aqui as condições ideais para produzir amêndoas de qualidade excecional [1].
A Amêndoa de Trás-os-Montes possui Indicação Geográfica Protegida (IGP) desde 2020, um reconhecimento que certifica não apenas a sua origem, mas também as características únicas que a distinguem. O clima de extremos — invernos rigorosos e verões escaldantes — e a exposição solar privilegiada conferem-lhe um sabor e textura que a tornam inconfundível [2].
E depois há a Amêndoa Coberta de Moncorvo IGP, eleita uma das 7 Maravilhas Doces de Portugal — um produto que é simultaneamente obra de arte e tradição viva. Feitas à mão pelas célebres "cobrideiras", estas amêndoas são cobertas com açúcar através de um processo artesanal que pode durar oito dias, com voltas e mais voltas num alguidar de cobre. Documentada desde 1908, esta técnica permanece inalterada, passando de geração em geração como um saber fazer que se recusa a apressar-se [2].
Tradições que Alimentam a Identidade
Há uma tradição transmontana que resume perfeitamente o papel social da amêndoa: a partidela. Este ritual coletivo de partir ou britar a amêndoa era realizado em conjunto pelos vizinhos, muitas vezes ao serão, sendo uma oportunidade para convívio com conversas, cantigas e brincadeiras. Não era apenas trabalho — era comunidade, entreajuda, identidade [3].

Torre de Moncorvo mantém viva esta tradição através de recriações periódicas que juntam gerações. Em 2023, mais de 130 idosos e centenas de crianças reuniram-se para partir amêndoas juntos, numa iniciativa que demonstra como o património cultural pode unir pessoas de todas as idades. Para os mais novos, foi uma lição sobre como as tarefas quotidianas eram realizadas no passado. Para os mais velhos, uma oportunidade de reviver tempos passados e transmitir conhecimento [3].
Outra tradição bonita associada à amêndoa está presente nos casamentos transmontanos: os noivos recebem cinco amêndoas, cada uma representando uma bênção — felicidade, fertilidade, riqueza, saúde e longevidade. É um gesto simbólico que atravessa gerações, conectando o presente a um passado de valores partilhados.
Amêndoa e Azeite: Uma Dupla com História
Quando falamos da combinação entre amêndoa e azeite, não estamos a inventar uma tendência gastronómica. Estamos a falar de algo que sempre existiu na cozinha transmontana, de forma natural e orgânica. Ambos são pilares da Dieta Mediterrânica, reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade [4].
O azeite virgem extra de Trás-os-Montes DOP tem um perfil sensorial único — frutado, com notas de amêndoa, equilibrado entre o doce, o verde, o amargo e o picante. Não é coincidência que uma das notas aromáticas características do azeite transmontano seja precisamente a amêndoa. É como se as duas árvores, crescendo lado a lado nas mesmas encostas de xisto, tivessem desenvolvido uma afinidade natural.
Esta ligação revela-se de múltiplas formas na gastronomia regional. Há séculos que amêndoas torradas e moídas se juntam ao azeite para criar molhos e marinadas. Há séculos que a doçaria conventual transmontana usa azeite fino nas massas que envolvem recheios de amêndoa. Há séculos que na mesa transmontana se serve amêndoa e azeite juntos, cada um realçando as qualidades do outro.
Da Tradição ao Prato Contemporâneo
A forma mais tradicional de combinar amêndoa e azeite em Trás-os-Montes e Alto Douro passa pela doçaria. Os Doces de Amêndoa de Mós do Douro, produzidos desde há mais de 250 anos, são um exemplo perfeito [5]. Nestas criações delicadas, o azeite entra na massa que envolve o recheio de amêndoa, criando uma textura única. A espessura da amêndoa laminada deve ser tão fina quanto a de uma flor de laranjeira — um detalhe que exige mestria e paciência.
Mas a dupla amêndoa-azeite também brilha em preparações salgadas. Amêndoas torradas e trituradas com azeite criam um pesto transmontano que acompanha na perfeição queijos da região ou serve de base para molhos. Amêndoas laminadas salteadas em azeite generoso, com alho e ervas aromáticas, transformam-se num topping crocante para saladas, legumes assados ou até bacalhau.
Há também o gesto simples que surpreende: um fio de azeite novo, ainda verde e picante, sobre Amêndoa Coberta de Moncorvo. A gordura do azeite equilibra a doçura intensa do açúcar, criando uma experiência gustativa inesperada — é doce, é salgado, é amargo, é complexo. É Trás-os-Montes e Alto Douro num só sabor.
O Terroir que Une Duas Árvores
Quando provamos amêndoa e azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro juntos, estamos a provar um território. O mesmo solo de xisto que obriga a amendoeira a criar raízes profundas é o solo que dá ao azeite as suas notas minerais. O mesmo sol intenso que amadurece a amêndoa é o que concentra os aromas no azeite. Os mesmos extremos climáticos que testam ambas as árvores são os que as tornam resilientes e produtoras de frutos excecionais.
Há uma palavra que explica isto tudo: terroir. É o conjunto de fatores ambientais, humanos e culturais que tornam um produto único e impossível de replicar fora do lugar onde nasce. A amêndoa de Trás-os-Montes e Alto Douro e o azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro partilham o mesmo terroir — e é isso que torna a sua combinação tão perfeita e tão verdadeira.
Este terroir manifesta-se também nas pessoas. São os agricultores que mantêm vivos os amendoais centenários e os olivais ancestrais. São as "cobrideiras" que perpetuam técnicas de há mais de um século. São as comunidades que se reúnem para partidelas e festas das amendoeiras em flor. É um património vivo, dinâmico, que se recusa a ficar preso no passado enquanto honra as suas raízes.
Flor Hoje, Sabor Amanhã

Nesta época do ano, quando as amendoeiras explodem em flores brancas e rosadas, há uma certeza: daqui a alguns meses, essas flores transformar-se-ão em amêndoas. E quando chegarem à mesa, seja na forma de Amêndoa Coberta de Moncorvo, seja como ingrediente de um doce tradicional ou de uma preparação contemporânea, provavelmente terão ao lado um fio de azeite.
Porque há combinações que não precisam de ser inventadas — apenas redescobertas. Há produtos que pedem para estar juntos porque nasceram na mesma paisagem, foram moldados pelas mesmas mãos, fazem parte da mesma identidade. A amêndoa e o azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro são dois desses produtos.
São a flor que anuncia a primavera e o fruto que alimenta gerações. São o trabalho coletivo da partidela e o gesto solitário de cobrir amêndoas durante dias. São tradição e inovação, passado e futuro, raiz e asa.
Vem Viver Esta História
Se queres entender verdadeiramente o que são a amêndoa e o azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro, há que vir à região. Visitar um amendoal em flor no final de janeiro ou início de fevereiro é testemunhar um dos espetáculos naturais mais bonitos de Portugal. Ver as "cobrideiras" a trabalhar é assistir a um ritual que desafia o tempo. Provar os produtos onde nascem é descobrir sabores que não existem fora deste terroir.
Dois Produtos, Uma Alma
A amêndoa e o azeite de Trás-os-Montes e Alto Douro são mais do que ingredientes — são expressões de uma forma de estar no mundo. Representam a paciência de esperar que as árvores cresçam e produzam. Representam o respeito pelas técnicas que foram aperfeiçoadas ao longo de séculos. Representam a generosidade de uma terra que, apesar das suas dificuldades, oferece produtos de qualidade rara.
Quando juntamos amêndoa e azeite na mesma preparação, estamos a celebrar Trás-os-Montes e o Alto Douro. Estamos a honrar as "cobrideiras" e os olivicultores, as partidelas e as apanhas. Estamos a manter viva uma identidade que se constrói na relação entre pessoas, terra e tradição.
Porque há sabores que só fazem sentido onde nascem. E amêndoa com azeite em Trás-os-Montes e Alto Douro é um desses sabores — profundo, verdadeiro, enraizado numa paisagem que todos os anos se veste de flores brancas para anunciar que a beleza e o sabor nascem da mesma terra.
Dica de Prova: Para uma experiência autêntica, experimenta Amêndoa Coberta de Moncorvo com um fio de azeite novo, ainda verde e picante, sobre queijo curado da região. Acompanha com vinho do Douro e broa. É Trás-os-Montes e Alto Douro numa única prova.
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