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Fevereiro no Olival: as mãos que moldam o futuro

Depois de janeiro trazer o silêncio do repouso profundo, fevereiro chega ao olival com ferramentas afiadas e mãos experientes. Este é o mês em que o olivicultor conversa com cada árvore, decidindo quais ramos ficam e quais partem — um diálogo entre tradição e conhecimento que moldará a próxima colheita.


Enquanto a tesoura de poda desenha o futuro das oliveiras, nas aldeias transmontanas os Caretos saem à rua em rituais ancestrais que também celebram a renovação: o fim do inverno e a promessa da primavera que se aproxima.


Fevereiro é o mês das mãos que moldam — seja a copa da oliveira ou o destino da comunidade.


A Poda da Oliveira: arte milenar que exige sabedoria


Em Portugal, a poda das oliveiras realiza-se tradicionalmente entre fevereiro e abril, sendo fevereiro o mês de maior intensidade nos olivais transmontanos. Este período coincide com o fim do repouso vegetativo, quando a oliveira está preparada para receber a intervenção sem sofrer demasiado stress [1].


Olival e poda

A poda não é apenas técnica agrícola — é conhecimento transmitido de geração em geração, uma conversa entre o olivicultor e a árvore que exige observação, experiência e respeito. Cada corte tem consequências, cada ramo removido ou mantido influencia a próxima safra.


Estudos recentes estimam que o interior norte de Portugal perde anualmente mais de 20% da produção de azeitona que seria possível obter se fosse implementado um regime de poda adequado à fisiologia da árvore [2].


Em Trás-os-Montes, muitos olivicultores adotam o sistema de "poda a três cortes", uma técnica simplificada mas extremamente eficaz que, quando bem aplicada, pode aumentar a produção média anual em 30% e reduzir os custos de mão-de-obra [3].


Para que serve a poda: os objetivos essenciais


A poda da oliveira responde a múltiplos objetivos fundamentais para a saúde e produtividade da árvore:


  • Eliminar ramos improdutivos e "ladrões": os ramos que crescem verticalmente, chamados "ladrões", não produzem azeitona mas roubam energia da árvore. A sua remoção direciona a força da oliveira para os ramos produtivos [1;4].

  • Estimular o crescimento de ramos novos: a oliveira frutifica nos ramos de um ano — aqueles que cresceram na primavera e verão anterior. É por isso indispensável estimular anualmente o aparecimento de novos ramos através da poda adequada [1;5].

  • Melhorar a entrada de luz e ventilação: abrir a copa permite que a luz solar chegue ao interior da árvore e que o ar circule, reduzindo a humidade e o risco de doenças fúngicas. Uma oliveira bem arejada é uma oliveira mais saudável.

  • Facilitar a colheita: ao conduzir a oliveira ao formato adequado e controlar a sua altura, a poda torna a colheita mais fácil, segura e eficiente — factor essencial em olivais tradicionais de encosta [1].

  • Remover madeira doente ou danificada: eliminar ramos afetados por doenças como a tuberculose da oliveira (causada pela bactéria Pseudomonas savastanoi) é fundamental, já que não existem tratamentos químicos eficazes para bactérias — a poda é a única solução [1;6].


Como se faz a poda: o saber das mãos experientes


A poda da oliveira exige ferramentas afiadas e limpas — tesouras de poda para ramos finos, serras para ramos mais grossos — e, sobretudo, conhecimento sobre a fisiologia da árvore.


Os princípios são claros: começar por remover ramos mortos, secos ou doentes; eliminar ramos que crescem para o interior da copa; cortar ramos que competem entre si pelo mesmo espaço; reduzir a altura se necessário para facilitar a colheita; e fazer uma limpeza final, removendo todos os restos de poda do olival [1].


Mas a poda vai além da técnica: é também intuição, sensibilidade e leitura da árvore. Cada oliveira tem a sua história, a sua forma, o seu comportamento produtivo. O olivicultor experiente sabe que uma árvore bem podada não é aquela que sofreu muitos cortes, mas aquela que foi podada o mínimo necessário para atingir os objetivos definidos.


Como diz o provérbio transmontano: "Quem lavra o olival pede-lhe fruto; quem o estruma pede-lhe com insistência; quem o poda obriga-o a dar azeitona."


Fevereiro nas Aldeias: o Entrudo que renova a terra


Enquanto nos olivais se molda o futuro da próxima colheita, nas aldeias de Trás-os-Montes, fevereiro é o mês do Entrudo — ritual ancestral que marca o fim do inverno e celebra a renovação dos ciclos agrários.


Caretos

O Entrudo Chocalheiro de Podence, reconhecido desde 2019 como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, é a expressão mais vibrante desta tradição. Durante quatro dias (do sábado ao terça-feira de Carnaval), os Caretos — figuras mascaradas vestidas com fatos de franjas coloridas e máscaras de latão ou madeira — saem às ruas ao som estrondoso de chocalhos e campainhas [7].


Os Caretos personificam seres sobrenaturais ligados aos ritmos da terra, representando a inversão da ordem social, a fertilidade e a passagem para um novo ciclo produtivo. Não são figuras criadas para entreter turistas — existem porque sempre existiram, herdadas de geração em geração como parte da identidade transmontana [7;8].


Esta tradição, que remonta a tempos pré-cristãos e tem raízes nas celebrações romanas do final do inverno, partilha com o trabalho do olival a mesma lógica: celebrar o fim de um ciclo e preparar a chegada de outro. Enquanto a poda renova a oliveira, o Entrudo renova a comunidade [8;9].


Outras aldeias transmontanas também mantêm rituais únicos: em Santulhão realiza-se o "Julgamento do Entrudo", onde bonecos de palha simbolizando os males do inverno são julgados e queimados na praça pública; em Vinhais, os Máscaros saem à rua com comportamentos ritualizados; em Lazarim, as máscaras de madeira esculpidas de pai para filho ganham vida nos desfiles [10].


A ligação profunda entre poda e tradição


Pode parecer distante a relação entre a poda da oliveira e os rituais do Entrudo, mas ambos partilham a mesma essência: a renovação necessária, o corte que permite o renascer, a sabedoria de saber quando intervir.


Tal como o olivicultor remove ramos para que a árvore produza melhor, a comunidade "remove" simbolicamente os males do inverno para que a primavera chegue com força renovada. Ambos os gestos — a poda no olival e o ritual nas aldeias — são expressões de uma cultura agrária que compreende os ciclos, respeita o tempo e celebra a transformação.


Fevereiro para sentir


Para quem visita Trás-os-Montes e Alto Douro em fevereiro, este é o mês da dualidade: o trabalho silencioso nos olivais, onde as tesouras de poda conversam com as oliveiras milenares, e a explosão de cor, som e energia nas aldeias durante o Entrudo.


É possível caminhar por olivais onde olivicultores partilham o conhecimento ancestral da poda, compreender porque cada corte importa, sentir o peso da tradição nas mãos que moldam árvores centenárias. E, poucos quilómetros adiante, encontrar aldeias inteiras transformadas em palcos de rituais que atravessaram séculos.


Fevereiro é também o mês perfeito para experiências de olivoturismo que unem trabalho agrícola e património cultural — descobre mais em azeiteanorte.pt/experiencia


Nas mesas, o azeite novo continua a brilhar: em sopas de legumes, bacalhau assado, carne de porco das matanças recentes, acompanhado pelo pão quente e pelo vinho que aquece o corpo.


Fevereiro é tempo de celebrar a mesa farta antes da austeridade quaresmal que se aproxima.


As mãos que moldam o futuro


Fevereiro ensina-nos que renovar exige coragem — coragem para cortar, para decidir, para confiar que menos pode ser mais. A poda, tal como os rituais do Entrudo, é um ato de fé no futuro: acreditar que a oliveira responderá aos cortes com vigor renovado, que a primavera chegará após o inverno.


No olival transmontano, onde oliveiras milenares convivem com tradições igualmente antigas, fevereiro é o mês que nos lembra que cuidar da terra é também cuidar da memória, e que moldar o futuro passa por honrar o passado.


🫒 Acompanha connosco o ciclo da oliveira mês a mês — em março, veremos como a oliveira desperta definitivamente e se prepara para a floração.


Referências:



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