https://www.azeiteanorte.pt/contato
top of page
Logo Azeite a Norte

O Lagar Ancestral de Cortiços: Onde as Pedras Ainda Contam Segredos do Azeite

Há lugares onde o tempo se cristaliza. O Núcleo Museológico do Azeite - Solar dos Cortiços, na aldeia de Cortiços, é um desses espaços raros onde podemos literalmente tocar no passado. Não é um museu comum — é uma cápsula temporal que preserva, intacta, a forma como os nossos bisavós transformavam azeitonas em ouro líquido.


🎥 Veja o lagar de Cortiços em movimento


Antes de mergulharmos nos detalhes técnicos, veja o nosso vídeo onde percorremos cada canto deste espaço centenário. As imagens dizem o que as palavras não conseguem.



Este lagar familiar que deixou de laborar em 1953 e que, após décadas como armazém de palha, renasceu como guardião de memórias. E o que descobrimos ali, entre paredes de xisto dourado e ferramentas centenárias, foi uma lição de engenhosidade que nenhum livro de história consegue transmitir.


A Arquitectura da Paciência


Entrar no lagar de Cortiços é como descer às entranhas do tempo. O chão de terra batida, polido por gerações de passos e azeitonas esmagadas, conduz-nos pela geografia funcional deste espaço: cada elemento tem o seu lugar exato, cada ferramenta conta uma história de uso repetido até à perfeição.


Tulha da azeitona

Tudo começa na tulha da azeitona — uma zona ampla onde os frutos recém-colhidos eram amontoados e deixados a repousar durante dias. Sim, dias. Num tempo onde a velocidade não era virtude, as azeitonas fermentavam ligeiramente. Sabiam exatamente quando o fruto atingia o ponto ideal para extração.


Dali, o fruto era retirado com o barreleiro — uma ferramenta de madeira desgastada pelo toque de incontáveis mãos — e transportado para o coração pulsante do lagar: a grande mó de pedra circular.


A Dança dos Bois e da Pedra


É impossível estar diante daquela mó maciça e não imaginar a cena: dois bois atrelados, caminhando em círculos infinitos, enquanto 200 a 300 quilos de azeitonas eram esmagadas sob o peso implacável da pedra. O som rítmico dos cascos na terra, o ranger lento da madeira, o aroma denso e amargo da massa verde que se formava.


Mó circular

Esta não era apenas uma técnica — era uma coreografia ancestral. Os homens alimentavam constantemente a mó com azeitonas frescas, controlavam o ritmo dos animais, observavam a consistência da pasta. O conhecimento estava nos olhos experientes, nas mãos que tocavam a massa e sabiam, sem medir, quando estava pronta.


Uma vez macerada, a pasta escura era retirada com a  e transportada na gamela de madeira até à zona de prensagem. E aqui começa a parte verdadeiramente engenhosa.


A Alquimia dos Capachos


Os capachos — discos trançados de esparto com cerca de um metro de diâmetro — eram o segredo da separação. A massa de azeitona era cuidadosamente distribuída em cada capacho, camada sobre camada, com um pauzinho de madeira a prensar e manter a estrutura estável.


Prensa

Quando a torre de capachos atingia a altura máxima, dois homens robustos iniciavam o trabalho hercúleo de apertar a prensa de madeira. Viravam, suavam, voltavam a virar. Aos poucos, começava a escorrer — primeiro um fio tímido, depois um fluxo constante de líquido denso e aromático.


Mas o que escorria não era ainda azeite puro. Era uma mistura de óleo, água de vegetação e impurezas sólidas. E é aqui que a verdadeira arte se revelava.


O Sistema de Decantação: Ciência Antes da Ciência


Observe bem as fotografias do lagar: aqueles canais esculpidos na pedra, aquelas várias "piscinas" de granito em diferentes níveis. É um sistema hidráulico de decantação natural que funciona há séculos sem falhar.


O líquido prensado escorria para o primeiro pio (tanque de pedra), onde recebia um tratamento térmico revolucionário: água quente retirada de uma caldeira de cobre, aquecida precisamente com o bagaço já espremido — desperdício zero, eficiência máxima. Este aquecimento ajudava a separar o óleo da água.


Então vem a magia da densidade. O azeite, mais leve, flutuava no topo. A água, mais pesada, depositava-se no fundo. As impurezas sólidas afundavam completamente. Através de um sistema de comportas e canais, as impurezas eram direcionadas para um aqueduto que as levava até ao fundo da aldeia, onde as gorduras residuais eram recolhidas para fazer sabão — novamente, desperdício zero.


O azeite seguia então para um segundo pio (ou talha), depois para um terceiro, cada um mais refinado que o anterior. Era a decantação sucessiva, a purificação pela paciência. No último tanque, o azeite estava límpido, dourado, pronto para ser medido nas antigas medidas de fricção e distribuído pelas famílias.


A Sabedoria Escondida nas Ferramentas


Caminhar entre as ferramentas do lagar de Cortiços é como ler um tratado de engenharia pré-industrial. A caldeira de cobre pendurada, desgastada mas ainda brilhante em algumas zonas. O barreleiro de madeira, com o cabo polido por milhares de usos. A gamela escavada num único tronco de carvalho. Os capachos de esparto trançado à mão, cada nó uma decisão técnica.


Cada objeto era feito para durar gerações. Cada forma tinha uma razão de ser. Nada era por acaso.


E talvez o mais impressionante: tudo isto funcionava sem eletricidade, sem motores, sem tecnologia moderna. Apenas com o conhecimento empírico acumulado por séculos de tentativa, erro e observação atenta da natureza.


O Lagar que Virou Memorial


Este lagar familiar deixou de laborar em 1953, quando a modernização chegou e os velhos métodos deixaram de ser economicamente viáveis. Durante décadas serviu como armazém de palha — um destino comum a tantos espaços ancestrais.


Mas em 1996, a família decidiu dar-lhe uma segunda vida. Não como atração turística superficial, mas como espaço de memória viva. Cada ferramenta foi preservada no seu lugar original. As explicações são dadas com paixão por quem conhece estas histórias de dentro. A luz natural que entra pelas pequenas janelas de xisto continua a iluminar os mesmos cantos que iluminava há 150 anos.


Hoje, o Núcleo Museológico do Azeite integra a Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo e é visitável mediante marcação. E deveria ser visita obrigatória para qualquer pessoa que se interesse por património, sustentabilidade ou simplesmente por compreender de onde vem o que comemos.


O Que os Antigos Lagares Nos Ensinam


Na Azeite Norte, visitamos Cortiços não com nostalgia romântica, mas com profundo respeito por estas lições ancestrais. Sim, hoje usamos tecnologia moderna que garante segurança alimentar, eficiência e qualidade certificada. Mas os princípios continuam os mesmos:


  • Respeitar o tempo do fruto — mesmo com processos rápidos, a azeitona tem o seu momento certo

  • Extrair a frio — o calor excessivo destrói os aromas, como os antigos já sabiam

  • Separar sem químicos — a decantação natural ainda é a melhor forma

  • Desperdício zero — cada parte da azeitona tem valor


O que mudou foram as ferramentas. O que permanece é a filosofia: fazer azeite é um ato de paciência, conhecimento e reverência.


Visite Antes que as Pedras Esqueçam


Se estas palavras despertaram em si a curiosidade de conhecer o Lagar de Cortiços, não adie. Estes espaços vivem enquanto são visitados, enquanto as histórias continuam a ser contadas, enquanto há quem se deslumbre com a simplicidade complexa destas técnicas.


Lagar comunitário

A aldeia de Cortiços, que já foi sede do concelho antes de Macedo de Cavaleiros, guarda muitos outros segredos — incluindo um lagar comunitário antigo ao ar livre. Mas é no Núcleo Museológico que a história se conta completa, preservada, quase palpável.


Prepare-se para sentir o cheiro da pedra antiga, para tocar na madeira desgastada dos capachos, para imaginar o calor da caldeira de cobre e o esforço dos homens na prensa. É uma experiência sensorial que nenhuma fotografia consegue transmitir.


E quando voltar a segurar uma garrafa de azeite, lembrará que dentro daquele líquido dourado está condensada uma sabedoria de milénios.


Porque há memórias que não podem escorrer pelo aqueduto do esquecimento.


📍 Núcleo Museológico do Azeite - Solar dos Cortiços

Aldeia de Cortiços, Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo

Visitas: mediante marcação prévia


Conheça o nosso compromisso com a tradição olivícola transmontana em azeiteanorte.pt

Comentários


bottom of page