Passadiços e Percursos que Tiram o Fôlego em Trás-os-Montes e Alto Douro — Parte 2
- Azeite a Norte Blog

- há 1 dia
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Na Parte 1 desta série, percorremos os Passadiços do Côa, o trilho das arribas de Miranda do Douro, os fantasmas da Linha do Tua em Mirandela e a confluência dos rios em Foz-Tua. Muita gente pediu mais — e mais há, de sobra.
Trás-os-Montes e Alto Douro é um território que se revela devagar. A cada percurso, um rio diferente. Uma aldeia que não sabias que existia. Uma paisagem que não cabia em nenhuma fotografia que já tinhas visto.
Esta é a Parte 2. Continua a caminhar.
1. PR3 — Trilho dos Passadiços do Tinhela
📍 Murça | 📏 6,5 km (circular) | ⏱ ~2h10 | ⚠️ Dificuldade: Fácil | 💶 Entrada livre

Inaugurados a 27 de maio de 2022 — os primeiros passadiços de madeira do concelho — o Trilho dos Passadiços do Tinhela foi homologado pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal e integra o Parque Natural Regional do Vale do Tua [1,2].
O ponto de partida e chegada é a Porta de Entrada de Murça do PNRVT, mesmo no centro da vila. A partir daqui, o percurso desce em direção ao Rio Tinhela — um afluente do Tua que percorre os municípios de Vila Pouca de Aguiar e Murça em águas cristalinas, com matas ribeirinhas que a conservação tem sabido proteger. É precisamente por isso que é considerado um dos rios mais bem preservados da Europa [1].
Os passadiços de madeira foram colocados estrategicamente na descida e na margem direita do rio, criando pontos de observação com vistas panorâmicas sobre o vale. Ao longo da margem, a galeria ripícola — os bosques húmidos que crescem junto à água — oferece sombra e frescura que no verão não tem preço. Com sorte, poderás avistar uma lontra a deslizar nas águas [3].
O percurso não é apenas natureza. O troço urbano passa pela Adega Cooperativa de Murça, pela famosa Porca de Murça (a escultura de granito da Idade do Ferro que é o símbolo da vila), pelo Antigo Convento das Freiras Beneditinas, pela Igreja Matriz e pelo Pelourinho Manuelino — uma visita ao centro histórico incluída no passeio, sem desvio [2].
Na Ponte Romana sobre o Rio Tinhela, tens uma escolha: continuar pelo percurso principal, ou seguir a variante pela Calçada de Murça — um troço de uma via romana de dois mil anos que ligava Astorga, em Espanha, à foz do Douro. Caminhar sobre ela é, literalmente, caminhar sobre a história.
Informação prática: O estacionamento junto à Porta de Entrada é gratuito. O percurso tem desnível de +168m / -168m, com altitude entre 381m e 510m. Recomendado para todas as idades, incluindo famílias com crianças [1,2].
Nota Azeite a Norte: Murça é terra de vinho e de azeite. A Adega Cooperativa de Murça produz alguns dos vinhos e azeites mais premiados do Douro, e os olivais que descem para o vale do Tinhela fazem parte do território do Azeite DOP Trás-os-Montes. Quando terminar o trilho, vale parar para provar — e levar para casa.
2. Passadiços da Ribeira da Fraga
📍 Ribeira da Fraga, Carrazedo de Montenegro, Valpaços | 💶 Entrada livre
Há lugares que a maioria dos guias de viagem não conhece. Ribeira da Fraga é um deles.
Esta pequena aldeia da freguesia de Carrazedo de Montenegro e Curros, a cinco minutos de carro de Carrazedo de Montenegro, ganhou um espaço de lazer ribeirinho com características únicas: as suas fragas — formações geológicas e rochosas de uma raridade e imponência que fizeram com que a Câmara Municipal de Valpaços investisse na sua requalificação e valorização [4].
O projeto criou passadiços de madeira que dão acesso ordenado e seguro à zona das fragas — até então dificilmente acessíveis —, uma ponte pedonal que atravessa o ribeiro, um miradouro sobre a paisagem e um parque de merendas junto à água. O resultado é um espaço de rara beleza, pouco visitado e totalmente gratuito, que oferece perspetivas sobre a paisagem envolvente impossíveis de ter de outra forma [4,5].
Como chegar: A partir de Valpaços, segue em direção a Carrazedo de Montenegro (cerca de 15 km pela N213). A Ribeira da Fraga fica a menos de 5 minutos de carro a partir do centro de Carrazedo, seguindo a indicação para a aldeia de Ribeira da Fraga [4].
Nota Azeite a Norte: O concelho de Valpaços está inserido na área de produção do Azeite DOP Trás-os-Montes. Por entre as fragas e o ribeiro, os olivais que pautam a paisagem deste território fazem parte da identidade agrícola desta terra que, como tantas outras do nordeste transmontano, soube guardar o que tem de mais genuíno.
3. PR3 — Trilho dos Caretos
📍 Podence → Praia da Ribeira, Albufeira do Azibo | 📏 4,5 km (linear) | ⏱ ~1h30 | ⚠️
Dificuldade: Fácil | 💶 Entrada livre
Este é o trilho que liga dois mundos num único caminho.
Começa em Podence — a aldeia berço dos Caretos, a tradição carnavalesca inscrita pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. O ponto de partida é junto ao painel informativo perto da Casa do Careto, onde podes conhecer os trajes coloridos de franjas, as máscaras de nariz pontiagudo e os chocalhos antes de começar a caminhar [6].
A partir de Podence, o trilho desce por campos agrícolas e bosques em direção à Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo — uma área integrada no Geopark Terras de Cavaleiros, Geopark Mundial da UNESCO desde 2015 [7]. A albufeira foi criada nos anos 1970 para abastecimento de água, mas foi sendo colonizada por uma extraordinária biodiversidade: mais de 200 espécies de vertebrados, incluindo lontras, e o Mergulhão-de-crista, símbolo da área protegida.

O trilho termina na Praia Fluvial da Ribeira do Azibo — uma das 7 Maravilhas das Praias de Portugal. Bandeira Azul. Acessível a pessoas com mobilidade reduzida. Uma das mais premiadas do país. O contraste entre a aldeia ancestral de Podence e este espelho de água azul, rodeado de sobreiros e carvalhos, não podia ser mais transmontano: tradição e natureza, inseparáveis [6,7].
Sugestão prática: O trilho é linear — termina a 4,5 km do ponto de partida. Para quem não quer voltar a pé, deixa um carro junto à praia e parte de carro até Podence para começar. Em alternativa, existe uma versão circular do percurso que permite regressar ao ponto de partida sem repetir troços [6].
Nota: O percurso integra a rede de 24 percursos de Pequena Rota homologados no concelho de Macedo de Cavaleiros [6].
Nota Azeite a Norte: Macedo de Cavaleiros é um dos concelhos parceiros da Azeite a Norte. O olival que pontua o mosaico agrícola por onde este trilho passa faz parte do território do Azeite DOP Trás-os-Montes — a mesma paisagem, o mesmo azeite, o mesmo nordeste.
4. PR10 — Percurso Pedestre das Termas de Tuela
📍 Aldeia de Dine, Vinhais | 📏 8,2 km (circular) | ⏱ ~3h | ⚠️ Dificuldade: Média | 💶 Entrada livre
Dine diz-se que é discreta, velhinha e esquecida. Que só se chega quando a estrada acaba.
Que os seus habitantes são sobretudo anciãos de respeitosas cãs, guardiões de uma identidade transmontana que o mundo moderno ainda não descobriu.
É precisamente por isso que este trilho, no coração do Parque Natural de Montesinho, merece o teu tempo.
O PR10 das Termas de Tuela parte da aldeia de Dine — com os seus fornos de cal recuperados e a Lorga de Dine, uma gruta de origem natural com vestígios de ocupação humana da Idade do Ferro — e segue pelos 8 quilómetros de um percurso circular a altitudes entre os 650m e os 820m [8].
O ponto mais memorável é o encontro com o Rio Tuela — um dos principais rios do Parque de Montesinho, que nasce em Espanha e percorre mais de 100 quilómetros antes de se juntar ao Rio Rabaçal, dando origem ao Rio Tua. Na margem esquerda do Tuela, o trilho passa pelas Termas de Tuela: uma pequena estrutura com banheiras, tanques e nascentes de águas sulfúreas, outrora frequentada por quem buscava tratamento para doenças da pele e do aparelho respiratório, hoje um monumento ao silêncio e ao abandono [8].
A caminhada atravessa bosques de carvalho-negral — a árvore símbolo da Terra Fria transmontana — lameiros húmidos, fragas graníticas e parcelas agrícolas que permanecem cultivadas pelos poucos habitantes que ficaram. A partir do troço mais alto, os horizontes abrem-se sobre os vales do Parque Natural e, em outubro e novembro, não é raro ouvir a brama do veado ecoar pelas serras [8].
Informação prática: Acesso pela EN308-3 a partir de Bragança ou pela EN103 a partir de Vinhais. O percurso está sinalizado, com folheto interpretativo disponível no Posto de Turismo de Vinhais. Recomenda-se evitar em dias de trovoada ou nevoeiro. Cota mínima: 650m / máxima: 820m [8].
Nota Azeite a Norte: A Terra Fria de Vinhais é terra de fumeiro e de castanha — mas também de olivais que em plena serra resistem ao frio e produzem uma azeitona de carácter único. O Azeite DOP Trás-os-Montes que chega da zona de altitude de Vinhais tem uma personalidade própria. Quando terminares este trilho em Dine, procura as lojas locais — há histórias guardadas em cada frasco.
O Que Levar
Cada percurso tem o seu ritmo — mas há coisas que nunca devem ficar em casa:
Calçado com sola anti-derrapante — os troços perto dos rios podem ser escorregadios
Água suficiente — mesmo nos percursos de menor dificuldade, a desidratação apanha de surpresa
Garrafa reutilizável — os rios desta região têm águas limpas, mas beber direto não é aconselhável
Roupa em camadas — em Dine e no Parque de Montesinho, a temperatura pode cair inesperadamente
GPS ou aplicação offline — o sinal de telemóvel é irregular
Referências
[1] cm-murca.pt — Trilho dos Passadiços do Tinhela (informação oficial do Município de Murça)
[2] trilhosecaminhadas.com — PR3 MUR Trilho dos Passadiços do Tinhela: ficha técnica completa
[3] viagens.sapo.pt — Pelas curvas de Murça: a lenda da porca e os passadiços do Tinhela (junho 2024)
[4] avozdetrasosmontes.pt — Ribeira da Fraga terá novo espaço de lazer (informação da CM Valpaços)
[5] chavesandaround.wordpress.com — Os Passadiços da Ribeira da Fraga (setembro 2022) [6] trilhosecaminhadas.pt — PR3 Trilho dos Caretos MCD: ficha técnica e informação oficial [7] azibo.cm-macedodecavaleiros.pt — Trilhos da Albufeira do Azibo (informação oficial da Paisagem Protegida)
[8] bercodomundo.com — PR10 Termas de Tuela (trilho no Parque Natural de Montesinho)




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