Passadiços e Percursos que Tiram o Fôlego em Trás-os-Montes e Alto Douro - Parte 1
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Passadiços e Percursos que Tiram o Fôlego em Trás-os-Montes e Alto Douro - Parte 1

Há caminhos que não se esquecem. Não porque sejam fáceis — mas porque o que revelam ao virar de cada curva nos muda qualquer coisa por dentro.


Em Trás-os-Montes e Alto Douro, caminhar não é desporto. É outra forma de ver. As encostas escarpadas, os rios que abrem caminho entre xisto e granito, as linhas de comboio abandonadas que a natureza reclamou para si — tudo aqui convida a abrandar e a prestar atenção ao que existe antes do ecrã.


Esta é a Parte 1 de uma série dedicada aos passadiços e percursos pedestres mais marcantes da região. Há muito por descobrir — e o melhor ainda está por vir. Por agora, começa por aqui.


1. Passadiços do Côa — Vila Nova de Foz Côa


Passadiços Côa

Entre dois Patrimónios Mundiais da UNESCO, a 930 metros de distância


📍 Vila Nova de Foz Côa | 📏 930 m (linear, ida e volta 1,8 km) |  ~45 min | ⚠️ Dificuldade: Moderada


Inaugurados em setembro de 2022, os Passadiços do Côa são curtos em extensão — mas não em intensidade. São 890 degraus e um desnível de 160 metros que ligam o Museu do Côa à antiga estação ferroviária desativada do Côa, já com vistas sobre o Douro [1].


O que torna este percurso único no mundo é o que está dos dois lados do caminho: de um lado, o Parque Arqueológico do Vale do Côa, com gravuras rupestres de há mais de 20.000 anos. Do outro, os socalcos do Alto Douro Vinhateiro. Dois Patrimónios Mundiais classificados pela UNESCO — a 930 metros um do outro [2].


O percurso exige atenção e calçado adequado. Em dias de muito calor (e no verão, o calor nesta terra quente é real), a subida pode ser exigente — recomenda-se fazê-lo de manhã cedo. As crianças devem ir sempre acompanhadas por adultos, dado o desnível.


O estacionamento fica no piso superior do Museu do Côa. O acesso aos passadiços faz-se pela zona junto ao bar-restaurante, na parte inferior do edifício [2].


Nota Azeite a Norte: A partir dos mirantes ao longo dos passadiços, os olivais que se estendem pelos socalcos do Douro são bem visíveis — lembrança de que aqui o território é cultivado desde há milénios. A azeitona que hoje dá o nosso Azeite nasce nestas mesmas encostas que o percurso atravessa com os olhos.


2. PR1 MDR — Das Arribas do Douro a São João das Arribas


O trilho das escarpas que parte da última cidade de Portugal


📍 Miranda do Douro | 📏 ~23 km (circular) |  7 a 8 horas | ⚠️ Dificuldade: Moderada | 💶 Entrada livre


Miranda do Douro é, literalmente, o fim de Portugal. A leste, o Douro corre encaixado em canhões de granito com mais de 150 metros de altura, fazendo fronteira com Espanha num dos territórios mais isolados e mais impressionantes do país. É aqui que começa este percurso.


O PR1 MDR parte junto à Sé Catedral de Miranda do Douro — uma das catedrais mais a oriente de todo o país — e segue para norte por caminhos vicinais em direção ao Castro de Vale de Águia, um antigo castro da Idade do Ferro com um miradouro natural sobranceiro às arribas. A caminhada continua por aldeias tradicionais do Planalto Mirandês, como Vale de Águia e Aldeia Nova, até chegar ao ponto mais alto do percurso: São João das Arribas [3].


Deste miradouro classificado como Monumento Nacional, as vistas sobre o vale do Douro são de tirar o fôlego. O rio serpenteia 400 metros abaixo, entre paredes de rocha que mergulham quase verticalmente — e do outro lado, a Espanha. É frequente avistar aqui grifos e abutres-do-egipto a planar sobre as arribas [3].


O regresso a Miranda faz-se pelo Rio Fresno, que banha a cidade a leste, numa descida tranquila que contrasta com a intensidade da paisagem das arribas. Ao longo do percurso, passa-se ainda pelo Centro de Acolhimento do Burro Mirandês, em Pena Branca — a raça autóctone que durante séculos foi companheira de trabalho nestas terras [3].


Informação prática: O percurso está sinalizado com marcação pintada e tem um painel interpretativo em São João das Arribas. Em Aldeia Nova, a sinalização pode ser escassa no troço até Pena Branca — recomenda-se o uso de GPS (disponível no Wikiloc). O percurso pode também ser feito em BTT ou a cavalo [3].


Nota Azeite a Norte: O Planalto Mirandês é terra de olivais centenários. Por entre os planaltos e as aldeias que este trilho atravessa, é possível ver como a oliveira e a azinheira convivem há séculos neste território de fronteira.


3. PR1 Trilho do Tua — Mirandela


13 km a acompanhar um rio e os fantasmas de uma linha de comboio


📍 Frechas → Mirandela | 📏 13,3 km (linear) |  ~3h30 a 4h | ⚠️ Dificuldade: Fácil/Moderada | 💶 Entrada livre


Há percursos que se percorrem com os olhos. Este é um deles.


O PR1 de Mirandela parte do Pelourinho de Frechas — classificado como Monumento de Interesse Público — e segue pela margem direita do Rio Tua durante 13 quilómetros, até chegar ao Posto de Turismo de Mirandela. É um percurso homologado pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, com paisagem sempre presente e desnível praticamente nulo ao longo de toda a extensão [4].


O que torna este trilho especial não é apenas o rio. Do outro lado da margem esquerda, são visíveis os troços da Linha do Tua — a linha ferroviária que ligava Mirandela a Bragança desde 1887 e foi progressivamente encerrada. Os carris e as travessas ainda lá estão em muitos pontos, silenciosos, reclamados pela vegetação, numa espécie de museu ao ar livre da memória industrial transmontana.


À saída de Frechas, o percurso passa por vinhas e marmeleiros — no outono, o cheiro a fruta madura impregna o ar. Mais à frente, o vale abre e o Tua revela as suas margens ribeirinhas com amieiros, salgueiros e zonas de mato mediterrânico [4].


Sugestão prática: Deixa o carro em Frechas e faz o percurso em sentido descendente (Frechas → Mirandela). Em Mirandela, é possível regressar à aldeia de Frechas de metro (Linha de Mirandela). Vale a pena terminar com um passeio pelo centro histórico de Mirandela e almoçar junto à Ponte Romana — uma das mais bem conservadas do nordeste transmontano.


Nota Azeite a Norte: Entre Frechas e Mirandela, os olivais que descem até ao rio lembram que este vale sempre soube produzir. O azeite do vale do Tua tem identidade própria dentro do DOP Trás-os-Montes — a paisagem que este percurso revela conta exactamente essa história.


4. Trilho de Foz-Tua — Carrazeda de Ansiães


Onde dois rios se encontram e o tempo parou


📍 Foz-Tua, Carrazeda de Ansiães | 📏 3,5 km (linear) |  ~1h00 | ⚠️ Dificuldade: Fácil | 💶 Entrada livre


Percurso

Este é o percurso para quem quer sentir o Alto Douro Vinhateiro com os pés no chão — literalmente.


O Trilho de Foz-Tua começa junto à Porta de Entrada do Parque Natural Regional do Vale do Tua e percorre passadiços de madeira pelas margens do Rio Douro, com vistas sobre os socalcos de vinha que fazem desta paisagem um Património Mundial da UNESCO. A meio do caminho, o Rio Tua desagua no Douro numa confluência que não se esquece [5].


O percurso passa ainda pela barragem de Foz do Tua — projeto da autoria do arquiteto Souto Moura — e pela antiga linha ferroviária do Tua desativada em 2008, cujas travessas de madeira ainda se percorrem a pé. O Centro Interpretativo do Vale do Tua, junto ao ponto de partida, é visita obrigatória para perceber a história humana e natural desta linha que ligava o Douro a Bragança desde 1887 [5].


Em período de cheias existe uma variante interior devidamente sinalizada.


Nota Azeite a Norte: Por entre os vinhedos em socalco, surgem os olivais. Nesta confluência do Tua com o Douro, a paisagem é um mapa vivo dos produtos que definem a identidade transmontana. A vinha e a oliveira, lado a lado, como sempre foram.


O Que Levar em Qualquer Um Destes Percursos


Antes de calçar as botas, uma lista rápida:


  • Calçado adequado — nada de sandálias ou sapatilhas de ginásio, especialmente nos Passadiços do Côa e o Trilho de Foz-Tua

  • Água suficiente — no verão, a zona do Douro e do Côa é das mais quentes do país

  • Lanterna — imprescindível ao anoitecer

  • Proteção solar — os percursos têm pouca sombra nas zonas abertas


Próxima Parte da Série


Na Parte 2 dos Passadiços TMAD vamos explorar percursos menos conhecidos — mas igualmente memoráveis: as águas escondidas da Serra de Montesinho, os trilhos do Douro Internacional em Miranda do Douro e os caminhos entre olivais centenários que ainda não encontras em nenhum guia turístico.


Guarda este post para não perderes nenhuma parte da série 🔖


Referências


[1] cm-fozcoa.pt — Projeto Passadiços do Côa (informação oficial do Município de Vila Nova de Foz Côa)

[2] beira.pt/turismo — Passear pelos Passadiços do Côa

[3] natural.pt/protected-areas/parque-natural-douro-internacional -PR1 MDR: De Miranda do Douro a São João das Arribas (Parque Natural do Douro Internacional)

[5] cm-carrazedadeansiaes.pt - Trilho de Foz-Tua: um percurso pedestre de memória e identidade

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