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Festas dos Reis em Trás-os-Montes e Alto Douro: O Encerramento Mágico do Ciclo Natalício

"Quando chega o dia 6 de janeiro, as aldeias transmontanas preparam-se para o último grande momento da quadra: o Dia de Reis. É o culminar de 12 dias de celebrações que começaram no Natal, onde o sagrado e o profano se entrelaçam numa das manifestações culturais mais autênticas de Portugal."


três reis magos

O Dia de Reis, ou Epifania, celebrado a 6 de janeiro, marca o encerramento oficial das festividades natalícias em Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas ao contrário de outras regiões onde este dia passa de forma discreta, aqui as aldeias explodem em rituais ancestrais que fundem o cristianismo com tradições pagãs milenares — o Cantar dos Reis, as saídas dos caretos, os peditórios das almas e as últimas fogueiras do ciclo dos 12 dias [1].


Para compreender a riqueza destas celebrações, é essencial conhecer o contexto das tradições natalinas transmontanas que antecedem este momento.


O Cantar dos Reis: Música, Poesia e Comunidade


Uma das tradições mais emblemáticas e transversais a todo o território transmontano é o Cantar dos Reis (também conhecido como Reisadas ou Cantares ao Menino). Entre a noite de 5 e o dia 6 de janeiro, grupos de amigos, vizinhos e familiares — os reiseiros — percorrem as ruas das aldeias e vilas, de porta em porta, entoando cânticos tradicionais que evocam a viagem dos Reis Magos até Belém [2].


Como funciona o ritual:

Acompanhados por instrumentos tradicionais como gaita-de-foles, bombos, acordeões, violas e pandeiros, os reiseiros cantam quadras que misturam religiosidade, humor e votos de prosperidade. As letras variam de aldeia para aldeia, mas mantêm sempre a essência: celebrar o nascimento de Jesus, desejar boas festas e invocar um ano próspero [2].


Algumas quadras tradicionais transmontanas:

"Aqui vêm as três rosinhas Quatro ou cinco ou seis Se o senhor nos dá licença Vimos-lhe cantar os Reis"
"Os três reis do oriente Já chegaram a Belém Visitar o Deus Menino Que Nossa Senhora tem"

À porta de cada casa, os reiseiros são recebidos com generosidade: vinho, jeropiga, enchidos, castanhas, bolos regionais e, claro, um generoso fio de azeite novo para molhar no pão acabado de cozer. Em troca dos cânticos, os habitantes oferecem donativos em dinheiro ou géneros, que tradicionalmente eram destinados às almas do purgatório ou às festas da paróquia [3].


Locais onde esta tradição permanece viva:

  • Macedo de Cavaleiros — realiza anualmente um Encontro de Cantares de Reis onde participam mais de uma dezena de grupos de diferentes localidades do concelho, cada um com melodias e características únicas [4].

  • São Pedro da Silva (Miranda do Douro) —A Festa dos Reis e dos Roscos celebra uma tradição comunitária onde os roscos — desde a sua confeção até ao leilão do tradicional ramo após a missa — são o grande protagonista, garantindo as receitas para a realização da festa. Organizada por jovens mordomos solteiros, a celebração culmina num baile popular que atravessa a noite, mantendo viva a identidade e o espírito coletivo da comunidade [5].

  • Babe (Bragança) — celebra com gaiteiros tradicionais a Festa dos Reis Magos [6].

  • Praticamente todas as aldeias de Trás-os-Montes mantêm alguma forma deste ritual, que representa um dos momentos de maior coesão comunitária do ano.


A Festa dos Reis de Vale de Salgueiro: Tradição Única no Mundo


Na pequena aldeia de Vale de Salgueiro (concelho de Mirandela), o Dia de Reis ganha contornos absolutamente únicos. 



bolo rei

Como se desenrola a Festa dos Reis em Vale de Salgueiro:

Todos os anos, um Rei é coroado para organizar a festa do ano seguinte. Os preparativos começam a 25 de dezembro, quando o Rei e a sua família colocam os tremoços de molho, que depois serão cozidos. Entre o Natal e o Ano Novo, prepara-se a festa: compra-se vinho, recolhe-se o "ouro" pela aldeia (joias emprestadas pelos habitantes) [7].


Dia 5 de janeiro:

No final da tarde, o Rei, a sua família e os jovens da aldeia reúnem-se à entrada de Vale de Salgueiro para esperar o Grupo de Gaiteiros. Quando estes chegam, dá-se o arranque da festa com uma primeira volta por toda a aldeia, ao som de gaitas-de-foles e bombos. Neste desfile inicial, os mais jovens têm permissão de fumar — uma tradição que, embora polémica, simboliza a emancipação dos rapazes e a passagem para a vida adulta [7].

Durante a noite, o Rei faz a primeira visita a todas as casas, distribuindo cerca de 300 quilos de tremoços e 100 litros de vinho. Segue-se uma ceia oferecida pelo Rei a todos os que o acompanham [7].


Dia 6 de janeiro:

Às 6h da manhã, o grupo de gaiteiros toca a alvorada. O Rei veste-se a rigor: fato, luvas brancas, coroa enfeitada com o ouro emprestado pelos habitantes, e leva um pau ornamentado encimado por uma laranja onde se colocam quatro libras de ouro. Assim vestido, o Rei visita todas as casas da aldeia ao som das gaitas-de-foles e bombos, desejando boas festas e recebendo donativos para custear a festa [7].

Segue-se a missa cantada em homenagem a Santo Estêvão, momento em que o Rei seleciona o seu sucessor — uma nomeação que, segundo os mais antigos, nunca deve ser recusada sob pena de má sorte.


A Festa dos Reis de Salsas: Caretos, Fogueiras e a Queima do Ano Velho

Se há uma aldeia onde o Dia de Reis atinge dimensão épica, essa aldeia é Salsas (concelho de Bragança). Aqui, a celebração dos Reis é indissociável dos caretos, personagens mascarados que protagonizam uma das manifestações culturais mais impressionantes de Trás-os-Montes [8].


A tradição dos Caretos de Salsas:


Entre os dias 1 e 5 de janeiro, todas as noites, os caretos de Salsas saem à rua com as suas máscaras de madeira, couro ou latão, e os fatos coloridos de lã com franjas. Ao som de chocalhos ensurdecedores, percorrem a aldeia, entram nas casas, chocalham as raparigas (ritual de fertilidade), roubam fumeiro (enchidos) e criam um caos controlado que diverte e assusta em partes iguais [8].


Na noite do dia 5, fazem o peditório — recolhem fumeiro pelas casas para depois leiloarem. Segue-se o baile e o convívio para toda a população [8].


Dia 6 de janeiro — O culminar:

No dia 6, os caretos tiram as máscaras e os mordomos das almas vão fazer o peditório das almas, um ritual religioso onde se canta os Reis pelas casas da aldeia, angariando dinheiro para as missas das almas [9].


O momento alto acontece ao final da tarde: a Queima do Ano Velho. Um careto gigante — geralmente com 7 metros de altura, construído artesanalmente em vime — é queimado numa fogueira monumental. Esta figura, inspirada nos antigos rituais celtas (o "wicker man" ou homem de vime), contém no seu interior quatro "monos" que simbolizam os quatro elementos da natureza (terra, ar, fogo, água) [8].


Ao queimar o careto gigante, a comunidade expurga simbolicamente todos os males do ano que passou, purifica-se pelo fogo e prepara-se para recomeçar limpa e renovada. À volta da fogueira, canta-se, dança-se, come-se e bebe-se até tarde, celebrando não apenas o Dia de Reis mas também a identidade coletiva e a ligação ancestral à terra [8].

Nos últimos anos, Salsas tem realizado um Encontro Ibérico de Mascarados, que reúne mais de 18 grupos de caretos de Portugal e Espanha, transformando a aldeia num verdadeiro epicentro da cultura mascarada peninsular [10].


O Significado Profundo das Festas dos Reis


natividade

As Festas dos Reis em Trás-os-Montes são muito mais do que folclore ou turismo. Representam:


O encerramento do ciclo dos 12 dias — o período sagrado entre o Natal (25 de dezembro) e o Dia de Reis (6 de janeiro) é considerado um tempo fora do tempo, onde o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos é mais tênue, e onde rituais de purificação e renovação se tornam essenciais [11].

A fusão entre cristianismo e paganismo — os Reis Magos são figuras cristãs, mas os rituais que os celebram — máscaras, fogueiras, peditórios, oferendas — têm raízes em cultos celtas e romanos ao solstício de inverno [1].

A identidade comunitária — o Cantar dos Reis, as saídas dos caretos, os peditórios são momentos que reforçam os laços de vizinhança, solidariedade e pertença. Numa era de individualismo crescente, estas tradições mostram que a força de uma comunidade reside na sua capacidade de celebrar junta [3].

A transmissão intergeracional — os mais velhos ensinam aos mais novos os cânticos, os rituais, o significado de cada gesto. É através desta transmissão oral e prática que a memória coletiva se perpetua e a identidade cultural sobrevive.


Experiências Autênticas para Viver as Festas dos Reis


Para quem procura vivenciar estas tradições de forma genuína:


Assistir ao Cantar dos Reis — em praticamente qualquer aldeia de Trás-os-Montes, na noite de 5 e no dia 6 de janeiro, os grupos de reiseiros saem à rua. Basta chegar, ouvir e partilhar.

Participar na Festa dos Reis de Salsas — uma experiência imersiva onde se pode assistir ao desfile de caretos, à queima do ano velho e sentir a energia de uma tradição milenar. Informação disponível no site da Câmara de Bragança.

Conhecer Vale de Salgueiro — uma aldeia onde a tradição resiste e se adapta, mantendo a essência de um ritual único.

Visitar os lagares e produtores — mesmo no início de janeiro, muitos lagares e produtores mantêm as portas abertas para visitas e provas de azeite novo, combinando turismo cultural com olivoturismo.

Percorrer as aldeias em festa — de Babe a Rio de Onor, de Gimonde a Aveleda, cada aldeia tem a sua forma única de celebrar os Reis. É uma oportunidade de descobrir um Portugal profundo, autêntico e profundamente humano.


Festas dos Reis e a Continuidade das Tradições


As Festas dos Reis encerram simbolicamente a quadra natalícia, mas abrem caminho para a continuidade da vida comunitária. É neste dia que, tradicionalmente, se desmontam os presépios, se apagam as últimas fogueiras do madeiro e se guardam as decorações até ao próximo Natal.


Mas a memória fica. As cantigas, os abraços, os sabores, o calor da fogueira, o som dos chocalhos — tudo isso permanece até que, no próximo ano, o ciclo se renove.


"Quando os últimos Reis são cantados e a última fogueira se apaga, as aldeias transmontanas regressam ao silêncio do inverno. Mas levam consigo a certeza de que há tradições que resistem, há memórias que perduram e há um património imaterial tão valioso que merece ser vivido, celebrado e transmitido às gerações futuras."

Vem descobrir as Festas dos Reis em Trás-os-Montes e Alto Douro. Vem sentir o que significa pertencer a uma comunidade, honrar os antepassados e celebrar a vida.


Referências:



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