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Ano Novo Vs. Azeite Novo: Renovação e Tradição em Trás-os-Montes e Alto Douro


Ano Novo Vs Azeite Novo

Quando dezembro chega a Trás-os-Montes e Alto Douro, duas renovações acontecem em simultâneo: a chegada do novo ano e a conclusão da colheita que nos dá o azeite novo. Ambas carregam consigo um simbolismo profundo de recomeço, prosperidade e continuidade — valores que estas terras guardam há séculos e que continuam vivos nas aldeias, nos lagares e nas mesas transmontanas.


O Azeite Novo: O Ouro Líquido da Renovação


A colheita da azeitona em Trás-os-Montes e Alto Douro estende-se tradicionalmente de outubro a janeiro, com dezembro marcando o auge da transformação nos lagares. É neste mês que o azeite novo — verde, intenso, aromático — começa a escorrer, trazendo consigo o sabor da terra e o resultado de um ano inteiro de trabalho [1].


Nas aldeias transmontanas, a chegada do azeite novo aos lagares é motivo de celebração silenciosa, mas profunda. Os produtores reúnem-se enquanto o líquido dourado escorre, provam o primeiro fio ainda quente, molham o pão acabado de cozer e avaliam a qualidade da safra. Esta é uma tradição ancestral de prova do azeite novo, geralmente realizada em novembro e dezembro, onde se celebra não apenas a qualidade do produto, mas também o trabalho coletivo e a ligação à terra [2].


O azeite novo transmontano, produzido principalmente a partir das variedades autóctones Verdeal Transmontana, Cobrançosa, Madural e Cordovil Transmontana, distingue-se pelo seu sabor intenso, com notas herbáceas e uma ligeira acidez que o torna perfeito para realçar os sabores genuínos da gastronomia regional [3].


O Ritual do Pão com Azeite Novo


Existe um costume antigo, registado já no século XVIII na obra "Medicina Lusitana" de Francisco da Fonseca Henriques, que menciona a tradição de comer pão quente com azeite novo diretamente do lagar. Este gesto simples, mas carregado de significado, representa a ligação direta entre o homem e a terra, a gratidão pela colheita e a renovação que o azeite novo traz — simbolicamente, um "reinício" que antecede o Ano Novo [4].


Ano Novo: Tradições de Prosperidade e Renovação


Enquanto o azeite novo chega aos lagares, as aldeias de Trás-os-Montes e Alto Douro preparam-se para celebrar a passagem do ano com rituais únicos que invocam prosperidade, proteção e fertilidade para o ano que se aproxima.


O Ramo de Ano Novo: Símbolo de Abundância


Uma das tradições mais emblemáticas do Ano Novo transmontano é o Ramo de Ano Novo, celebrado em aldeias como Réfega e Rio de Onor, no concelho de Bragança.

Em Réfega, os habitantes preparam um ramo decorado com frutos, doces e cigarros, que representa a árvore da fertilidade e da abundância. Este ramo é leiloado no dia 1 de janeiro, e acredita-se que quem o adquire garante prosperidade para o novo ano. Na noite de 31 de dezembro, é também tradição construir um boneco de trapos e palha que representa o ano velho, queimado em fogueira — um ritual simbólico de purificação e renovação [5].


Em Rio de Onor, são os jovens da aldeia que recolhem os géneros para compor o ramo: salpicão, chouriça, bolos, chocolates e outras guloseimas — os produtos que representam a base da prosperidade local. Este ramo também é leiloado no Ano Novo, num gesto que une tradição, comunidade e esperança no futuro [5].


Fogueiras da Renovação


Fogueiras na aldeia

Em diversas povoações de Trás-os-Montes e Alto Douro, mantém-se vivo o culto do fogo no Ano Novo. Fogueiras são acesas nas praças das aldeias, reunindo a comunidade numa celebração que tem raízes nos antigos rituais do solstício de inverno — quando os nossos antepassados acendiam o fogo para celebrar o renascimento do sol e afastar os maus espíritos [5].

Este culto do fogo, que já abordámos em profundidade no nosso artigo sobre As Fogueiras e os Rapazes: Luz e Tradição no Coração de Trás-os-Montes, ganha na passagem de ano um significado ainda mais intenso de purificação, renovação e união. À volta destas fogueiras, as famílias partilham vinho, castanhas assadas e os primeiros enchidos do ano, enquanto formulam os seus desejos para os meses vindouros.


Os Caretos e o Barulho da Passagem


Em Trás-os-Montes e Alto Douro, é tradição que os Caretos saiam à rua na passagem de ano, com os seus característicos trajes coloridos, máscaras e chocalhos à cintura, fazendo tropelias e muito barulho — uma forma de afastar os maus espíritos e abrir caminho à renovação [6].

Este ritual faz parte do ciclo festivo que vai do Natal ao Dia de Reis, conhecido como o "ciclo dos doze dias", período em que várias aldeias dos concelhos de Miranda do Douro, Vinhais, Bragança e Mogadouro celebram a transição entre o ano velho e o ano novo através de máscaras, danças e rituais de fertilidade [7].


Paralelos entre Azeite Novo e Ano Novo


Há uma ligação simbólica profunda entre a chegada do azeite novo e a celebração do Ano Novo em Trás-os-Montes. Ambos representam:

  • Renovação: O azeite novo é o fruto da última colheita do ano; o Ano Novo é o recomeço do calendário. Ambos marcam o fim de um ciclo e o início de outro.

  • Prosperidade: O azeite é sinónimo de riqueza e abundância; os rituais de Ano Novo invocam fertilidade e fartura para os meses vindouros.

  • Continuidade e Tradição: As oliveiras centenárias e milenares que pontilham a paisagem transmontana simbolizam a ligação geracional; as tradições de Ano Novo são transmitidas de pais para filhos, mantendo viva a memória coletiva.

  • Partilha e Comunidade: A prova do azeite novo nos lagares e os rituais de Ano Novo são momentos de convívio, onde a comunidade se une para celebrar o trabalho realizado e os votos de um futuro melhor.


Celebrar a Renovação à Mesa


Azeite Novo à mesa

A ceia de Ano Novo em Trás-os-Montes e Alto Douro carrega os sabores do azeite novo. É tradição regar os pratos com um generoso fio do azeite recém-extraído, que eleva qualquer receita — desde o bacalhau cozido ao arroz de forno, das rabanadas aos enchidos assados.


O azeite novo torna-se protagonista nestas mesas de celebração, onde cada prato conta uma história de trabalho, dedicação e amor à terra. É uma forma de honrar a colheita que terminou e de invocar prosperidade para a que virá.


Porque na renovação — seja do azeite, seja do ano — habita a esperança de dias melhores, colheitas mais generosas e mesas sempre fartas.


Referências:


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