Tesouros do Norte: Lebução — A Aldeia do Tesouro Escondido
- Azeite a Norte

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Nos finais do século XIX, alguém encontrou ouro perto de Lebução. Não o ouro dos rios nem o dos sonhos dos garimpeiros — mas torques e braceletes celtas, peças de adorno masculino com mais de dois mil anos, trabalhadas com a gramática decorativa do mundo celta que habitou estas terras antes de Roma e antes de Portugal. O achado ficou conhecido como o Tesouro de Lebução. As jóias viajaram até ao Museu da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, onde continuam expostas. A aldeia ficou onde estava — entre montanhas, sobre o rio Calvo, com a porta aberta para quem vier por bem.
Mas o verdadeiro tesouro de Lebução nunca saiu daqui.
Uma aldeia que já foi capital
Poucos sabem, mas Lebução já foi sede de concelho. Quando o Castelo de Monforte de Rio Livre, a fortaleza que durante séculos defendeu estas terras contra Castela, ficou despovoado no início do século XIX, foi para Lebução que a administração se transferiu. Em 1836, a aldeia tornou-se formalmente a capital do concelho de Monforte de Rio Livre — e assim se manteve até 1853, quando o município foi extinto e o território integrado em Valpaços.
A memória desse tempo ainda se lê nas pedras. A Igreja Matriz, obra da Renascença, ergue-se do alto das suas torres sineiras sobre o casario disposto em anfiteatro. No interior, o retábulo do altar-mor, com colunas salomónicas e abóbada polícroma, é descrito pelos habitantes como o mais bonito de Valpaços e arredores. Não é preciso ser especialista em arte sacra para lhe dar razão — basta entrar e olhar para cima.

O Castelo que o povo defendia
Nas proximidades de Lebução, o Castelo de Monforte de Rio Livre conta uma história de privilégios ganhos com coragem. O povo desta terra tinha a obrigação de defender a fortaleza contra os castelhanos — e, em troca, os reis de Portugal concederam-lhes um benefício raro: não pagar siza das compras e trocas que fizessem. D. Afonso III outorgou o primeiro foral em 1273, D. Dinis transformou a fortificação em castelo, e D. Manuel renovou o foral em 1512. As ruínas são visitáveis e, mesmo em silêncio, contam o peso de uma fronteira que aqui se guardou durante séculos.
O ouro que veio da terra - O Tesouro de Lebução
O Tesouro de Lebução é um dos achados arqueológicos mais significativos do Noroeste peninsular. Dois torques — colares rígidos de ouro usados por chefes guerreiros celtas —, extremidades de outros torques e uma bracelete compõem o conjunto. As peças datam da II Idade do Ferro (entre os séculos IV e I a.C.) e aproximam-se, pela função e pela decoração, do universo cultural céltico que dominou estas alturas ibéricas antes da romanização.
Doado em 1957 pela família de Ricardo Severo ao Museu da Sociedade Martins Sarmento, o tesouro pode ser visto em Guimarães. Mas é em Lebução que ele faz sentido — na paisagem de montanha onde os povos castroienses se fixaram, nos montes onde ergueram as suas fortificações, no solo que guardou o ouro durante dois milénios até alguém o encontrar.
O rio, os moinhos e o que ficou
Lebução assenta na margem esquerda do rio Calvo, afluente do Rabaçal. Ao longo deste rio e dos seus tributários existiam dezenas de moinhos de água — as máquinas que, durante séculos, transformaram o centeio em farinha e a farinha em pão. A maioria está hoje em ruínas, mas os que resistem são testemunhos de uma economia que sustentou gerações inteiras.
Nas proximidades, as aldeias abandonadas de Calvo e Cachão são fantasmas de pedra no planalto — lugares onde a vida acabou mas as casas ficaram, como se esperassem que alguém voltasse. Para quem caminha por estes vales, o silêncio é o de uma história que se foi embora mas deixou as paredes de pé.
Terra de azeite, terra de partilha
Valpaços é o segundo maior município produtor de azeite em Portugal, e Lebução está no seu território. A Cooperativa de Olivicultores de Valpaços, uma das maiores do país, é a referência institucional de uma produção que marca a paisagem e a economia de todo o concelho. Na zona sul do município, os olivais estendem-se pelas encostas e a azeitona é colhida entre outubro e dezembro, como sempre foi.
Mas Lebução é terra de montanha, e aqui a agricultura sempre foi de centeio, batata, castanha e vinho. A gastronomia reflecte isso mesmo: é cozinha de substância, feita para aquecer e para partilhar. As festas do Emigrante, no segundo domingo de agosto, e a festa da padroeira Nossa Senhora dos Remédios, no segundo domingo de setembro, são os momentos em que a aldeia se enche de quem partiu e voltou — nem que seja por uns dias.
Como chegar e o que visitar
Lebução fica a 25 km da sede do concelho de Valpaços, no extremo noroeste do município, quase na fronteira com Chaves. A partir do Porto, são cerca de duas horas e meia pela A4 até Valpaços e depois estrada municipal até à aldeia. A partir de Bragança, pouco mais de uma hora.
Na aldeia: a Igreja Matriz renascentista com o retábulo de colunas salomónicas e abóbada polícroma; o monumento ao Emigrante; o casario em anfiteatro sobre o rio Calvo.
Nas proximidades: as ruínas do Castelo de Monforte de Rio Livre; os moinhos de água do rio Calvo; as aldeias abandonadas de Calvo e Cachão; as gravuras rupestres de Nossa Senhora da Ribeira.
No concelho: a Casa do Vinho (museu interactivo em Valpaços); a Cooperativa de Olivicultores; a Ecovia do Rabaçal; os lagares cavados na rocha.
O tesouro saiu de Lebução. Mas Lebução continua a ser o tesouro — nas pedras da igreja, na memória do castelo, no rio que corre manso, na porta que está sempre aberta. Venha descobrir a aldeia que guardou ouro durante dois mil anos. E que ainda tem muito para dar.
Fontes: CM Valpaços (valpacos.pt), Museu da Sociedade Martins Sarmento (csarmento.uminho.pt), blog Lebução de Valpaços, Rota da Terra Fria (rotaterrafria.com).
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